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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Camus ou Cami, por Luis Fernando Veríssimo

Texto publicado em diversos jornais no dia 14/11/13

Me lembro do meu pai treinando seu francês para o discurso que faria em saudação ao Albert Camus, que estava no Brasil e visitaria Porto Alegre. Era “Camus” com final “mus” como em “músculo” ou “Cami”?

Eu só sabia que era um francês importante. Depois ele falou mal da sua visita. Nunca ficou claro o que o desagradara tanto no Brasil. Seu desgosto foi com todo o país, não só com Porto Alegre. O que pelo menos livrou a pronúncia do meu pai.

Antes de ler qualquer coisa do Camus, eu já sabia da vida dele, instigado por aquela sua visita à minha cidade quando eu tinha 13 anos. Sua infância na Argélia, sua atuação na resistência durante a ocupação nazista da França, e — o que mais me interessava — o fato de ele ter sido goleiro na juventude.

Mais tarde, quando comecei a ler sua obra, me interessei pelo mito inteiro. Sua definição do absurdo da existência na figura de Sísifo, sua posição ambígua diante da guerra de independência da Argélia, seus desentendimentos com Sartre, seu Prêmio Nobel (que Sartre também ganhou, mas se recusou a receber) e sua crescente reputação entre os intelectuais da época como alternativa para o engajamento radical do Sartre, e entre as leitoras da época como a personificação do escritor enquanto galã.

Este ano comemora-se o centenário do nascimento de Camus, cujo nome e cuja influência, acho eu, duraram mais do que as do Sartre. O dele ainda é um modelo de engajamento a ser seguido.

Numa entrevista publicada na “Les Nouvelles Littéraires” em 1951, ele qualifica a conclusão, representada no mito de Sísifo e o eterno retorno da sua pedra, de que a condição humana é um absurdo inescapável. Diz Camus: “Nada realmente tem sentido? Nunca acreditei nisso. Enquanto escrevia ‘O mito de Sísifo’ eu já pensava no ensaio sobre a revolta que escreveria em seguida.”

O ensaio citado pelo autor é o livro “O homem revoltado”, uma receita para que a vida faça sentido, na revolta contra a injustiça.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

DeFalla + Farryboat + Dj Ivanovick (eu!) no Jokers, sexta dia 12/04

Esse é o tipo de coisa que a gente fica feliz só de imaginar: discotecar no show de umas das bandas mais importantes do rock nacional e, principalmente, da minha vida.


FESTA DE LANÇAMENTO DO SELO STEREO TOASTER

DEFALLA
Para o lançamento foi convidada a banda gaúcha DEFALLA, Com influências de hard rock, punk rock, funk, rap, heavy metal e outras misturas mais, o DEFALLA, de 1984, quebrou paradigmas e abriu espaço a uma geração de músicos e bandas, como Pavilhão 9, Ultramen, Patu Fu e Planet Hemp. O DEFALLA vem a Curitiba com a formação clássica que gravou seu premiadíssimo primeiro álbum, “Papaparty” (1987), base do repertório a ser apresentado no Jokers.
A todo vapor e preparando disco novo, vão apresentar as canções que marcaram sua trajetória.
Ouça e veja Defalla: olelemusic.com.br

FERRYBOAT
É o projeto solo do principal compositor musical da seminal banda oitentista curitibana BEIJO AA FORÇA, o guitarrista Luiz Ferreira.
A banda estreia lançando o cd 10 DIAS NA PRAIA, com referências blues, pop, rock e bossa. Uma edição de luxo, semi artesanal limitada a 300 exemplares produzido pelo selo Stereo Toaster.
A banda reúne três grandes nomes da música paranaense: Luiz Ferreira (Guitarra e voz); Carlos A. Lins (bateria) e Angelo Stopraro (Baixo).
Ouça e veja Ferryboat: rockferryboat.blogspot.com
www.stereotoaster.com.br

SERVIÇO:
Data: 12 de abril, sexta.
Hora: 22 horas
Local: Jokers Pub (Rua São Francisco, 164)
Ingresso: R$40 (primeiro lote de 150 ingressos antecipados a R$20).
Venda antecipada:
Jokers, R. São Francisco, 195
Lado B - R Inacio Lustosa, 517
Parangolé Café - R. Benjamin Constant, 400
Informações: 3324-2251

terça-feira, 2 de abril de 2013

Quem sabe até eu volto a escrever aqui...

A última postagem foi em novembro... Era sobre a virada da virada da virada...

De lá para cá aconteceu tanta coisa na minha vida, nos meus círculos e no mundo que, bem....  eu não escrevi aqui, mas lá no face e na vida a gente vai falando, né?

Mas eu sento falta desse blog que já foi bem frequentado (em número e qualidade), então vamos lá!


De: http://malvados.com.br/

terça-feira, 6 de novembro de 2012

E tem a Virada Cultural (só que não...)

O pessoal do Lolitas Coiffure e adjacências está fazendo sua própria virada, muito mais apropriada por sinal:

Virada Cultural Independente
Circuito dos Reis (da Trajano a Jaime Reis)

Em Parceria com Lisa Simpson Garage, Album Design Hits, Vinil Velho e Colete&Corselet

*10 de Novembro - Sabado - Palco Lavanderia
Lolitas Coiffure e Album , Trajano Reis 115 e 111.
13h - 19h - Bazar Vitrine na Calcada com
Lisa Simpson Agente Costura Colete&Corselet Lolitas Coiffure
13h - 15h So Vinil DJ's Set com
Vinil Velho - Skadrophenia Sound System
15h - 22h Palco Lavanderia Apresenta:
15h - Rocksteady City Firm
16h - Cavernoso Viñom
17h - Audac
18h - So Vinil DJ's Set com Só o Soul Salva!
19h - Cacique Revenge
20h - Uh La La !
21h - Giovanni Caruso e o Escambau
22h - So Vinil DJ's Set

*11 de Novembro - Domingo - Palco Garage
Lisa Simpson Garage, Jaime Reis 278
Programacao das 13h - 22h
- Des Filles Fantastiques
- Os Chuvas
- Dj Anaum
+ Jam Sessions durante toda a tarde
+ desfiles participativos - quem quiser pode dar carão
+ microfonagem de secadores de cabelo com Lolitas Coiffure
+ costuras na hora.

tudo na rua, gratis, Free for All !!!

Lá vem a virada

Estou há mais de um mês sem escrever nada aqui... foi um período cheio de altos e baixos (gordos e magros). Mas a vida está melhorando e teremos virada cultural neste fim de semana. Como já opinei no facebook, bem fraquinha dessa vez, ainda assim com bastantes atrações apreciáveis, algumas imperdíveis. Vou fotografar e filmar o que puder. Então me aguardem.

Já nesta quarta-feira, tem Mistinguett Live na Casa Selvática. O Show está marcado para 19:30h e o ingresso custa só cincão inteira. Recomendo, mas estarei trabalhando. A Jo e sua banda fazem um som dançante e pesado, com fortes influências do pós-punk e do eletro. Vale muito conferir.

Até sábado tem uma porção de coisas legais, que se eu não tivesse que trabalhar adoraria ver quase todas. Para ver a programação completa acesse: http://www.correntecultural.com.br/programacao

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sergio Penna Laskowski - Vinte e Dois



Sergio Penna Laskowski tocando a canção "Vinte Dois", de sua autoria, em show no Teatro Universitário de Curitiba. Reparem na participação especial de uma barata no fim do vídeo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Cacique & Audac no James



Fui no James meio que pedir desculpa por ter perdido o Audac no Cine Jóia. Bom, sou suspeito pra falar do Audac, mas vou... Antes teve o Barra Forte, um “projeto” novo dos conhecidos Cassiano, Andreza Michel, Babi Age, Rafael Martins e André Tobler. Lá, na hora, chamava Cacique, vai saber...

O fato é que o Cassiano merece honra ao mérito por muitos anos de serviços prestados ao rock. Magog, Bad Folks, Barbária... Imagino se o Daniel estivesse por aqui... Mas, bem, com o Rafael, a Andreza, o André, Babi... era bem difícil dar erro. E não deu. Uma massa sonora concisa e recheadíssima de referências. Belas canções. Fecharam com Step on do Happy Mondays, numa versão pra lá de punk: “don't you know? he can make you forget you're a man, you're a man, you're a man..."

Bom, daí veio o Audac. Perdi em São Paulo. Tava comendo sardinha crua num boteco Japa na Liberdade... Mas, o que perdi! Desde a última vez que vi o som delas e deles evoluiu muito. Ainda não tinha visto com o Pablo e o Ale. SEN - SA - CIO - NAL. Uma doçura amarga escorre do palco e as pessoas ficam atônitas, hipnotizadas.

Recomendo fortemente.

Não será beeem, assim, um painkiller, mas você vai perceber do que é feita sua dor, o que já é um grande passo.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mentiras de Guerra - uma história recente de Curitiba

Adiei a escritura desse texto e meio que desisti, pois o tempo havia passado. Mas o tempo nunca passa completamente, algumas coisas vão ficando e a gente olha para elas de novo e se enxerga um pouco.

Cheguei a Curitiba em 1995. Já em 96, numa noite de domingo (a minha folga do trabalho de barman) fui ao Cine Guarany assistir ao filme Underground, Mentiras de Guerra. A indicação do filme por uma amiga de gosto insuspeito e uma paquera recente me motivaram àquela aventura.

Entre as novidades da cidade grande(!) encarei um biarticulado do Centro ao Portão e a zoeira que uma torcida, acho que do atlético, fazia no ônibus. O cinema num centro cultural público também foi uma surpresa.

O filme do iugulavo Emir Kusturica retrata o esfacelamento de um país que já não existe mais, no caso o dele. Para isso, o cineasta lança mão de um turbilhão de alegorias. A mentira como ferramenta de poder é levada ao extremo.

Isso me veio à mente agora que a prefeitura inaugurou novamente o Centro Cultural do Portão, espaço público que fica junto do terminal daquele Bairro e abriga o Cine Guarany, entre outros equipamentos culturais. O espaço ficou fechado por inacreditáveis oito anos, durante os quais, quase todos os outros cinemas municipais encerraram suas atividades.

No filme do Kusturica um porão abriga por 50 anos uma porção de gente que é levada a acreditar que a segunda guerra mundial não tinha acabado. No lado de cima, pessoas que estavam no porão eram homenageados como heróis de guerra. O casal que faz a ponte entre os dois mundos acabam sendo as figuras centrais da trama.

Eu vejo a grande política curitibana mais ou menos assim, uma porção de mentiras contadas de maneira mais ou menos ordenada com o objetivo de confinar um grande número de pessoas a um porão. Mas eu não falo de mentira como oposição a verdade (com ou sem crase). Eu também não acredito em verdade. A verdade só existe se você estiver disposto a ser iludido de alguma forma.

No porão de Curitiba também há um casal que faz a ponte entre as duas realidades e consegue iludir os confinados, exilados de guerra. Nesse porão um cobertor da FAS vale um voto trocado pela nossa heroína Fernanda do Clã do Zé do Chapel. É um grande porão que o Beto fez ampliar para cobrir o Estado inteiro. Nosso herói está nos protegendo dos horrores da guerra de mentira. Mas, segundo ele, está difícil fazer qualquer coisa pois o comandante anterior, o Rei-quião, levou nosso exército a muitas derrotas. Terra arrasada mesmo.

Aqui, o porão é uma cidade maravilhosa. O problema é que ela não existe, pois do lado de cima não há uma guerra. Nunca houve uma guerra pra cantar os heróis que se auto condecoram. A cidade do porão é modelo de transporte, é ecológica, é saudável; a de cima, a de verdade(?) é poluída, faltam médicos e os ônibus demoram e são megalotados.

A grande ironia no filme é que quando os abrigados no porão suspeitam que a guerra é uma mentira eles saem do porão e encontram outra guerra, a dos Balcãs, também de mentira; pois toda guerra é de mentira e de mentiras. Mas para eles a guerra ainda é a mesma, 40 e tantos anos depois.

Existe a possibilidade de que Curitiba desconfie das mentiras de guerra no meio da guerra de mentiras que está prestes a começar. O duro é que se resolvermos sair do porão, provavelmente vamos encontrar outra guerra (de mentiras) de verdade e vamos continuar sempre tentando sair do porão.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Festa Punk, Zirigdun Pfóin tocando Sandina (e eu cantando!)



Fetsa Punk em junho de 2012 com a banda Zirigdun Pfóin tocando clássicos do punk rock brasileiro dos anos 80. Nessa música, Sandina dos gaúchos do Replicantes tem a participação especial de Ivan Ivanovick (Eu, no caso)...

Pensando agora, acho que essa é a música mais legal da minha vida.

sábado, 5 de maio de 2012

40 anos no jardim

(ainda não está pronto)

No começo eram no colo da mãe, ou de uma tia, as minhas fotos que eu vi. As casas de madeira no Bom Retiro quase não tinham muro ou cerca, mas tinham enormes gramados, cercas vivas, plantas de várias formas, cores, cheiros e sabores. A gente circulava livre entre as várias casas, correndo, se escondendo... Esses foram os jardins da minha infância.

Tenho uma foto em preto e branco, na verdade três, na frente de umas palmeiras. Lembro (acho) que eram na entrada da casa da minha avó Agostina, que foi um pouco minha casa também. Tinha a Rua Brasil, o Vilmar, os pés de pitanga, ameixa, goiaba, amora, carambola... tão fartas então, hoje nem se acha no mercado.

Numa das fotos minha irmã pousava cheirando uma rosa, cinza, linda. Outras duas eu aparecia junto com meu irmão. Eu era o menor, sempre mais redondinho. Esses foram os jardins da minha infância.

Lembro das datas. A gente fazia cartões nas datas. Era uma tradição. Lápis de cor, giz de cera. Na época ficava bonito. Hoje não sei. Num dos seus ataques, minha mãe saiu rasgando tudo. Choradeira.

E assim, a inocência foi sumindo ali mesmo, no jardim. Imagine uma planta crescendo ao contrário. Devagar, sem que se possa perceber, quando se vê, já era. Mas havia outras plantas crescendo em muitos jardins.

De repente (nem foi) descobri a música. Uma forma divertida de aplacar um pouco o turbilhão das angustias que cresciam como pragas, e ainda se cultivam, sempre, por si. E como planta que tenta crescer mas não tem terra, não tem água, não tem sol; nunca aprendi a tocar nenhum instrumento, nem a cantar. Para me vingar, martelei tambores de lata, surrei chapas e molas de aço com correntes de ferro enferrujadas, tirando sangue das minhas mãos e dos ouvidos desavisados.

Outras paixões foram semeadas, brotaram e cresceram. Talvez a principal tenha sido a do desejo que o mundo todo fosse um belo jardim, um imenso bosque, frondoso pomar. Abrigo, sustento, deleite para todos quantos vivessem nesse enorme jardim.

E pelos caminhos que sempre se bifurcam no jardim, perseguindo sonhos, segui chutando pedras em meu coração.

Do jardim também se colhia cana, vinho, tabaco, coca e os venenos naturais e artificiais. Não dizem que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose? Digo que não. A diferença é se cura ou mata. Mas sempre cura e mata sempre, ao mesmo tempo.

Para não perder a inevitável deixa de Cartola, “volto ao jardim, com a certeza que devo chorar” pois esse tempo todo, nem que queira, não vai voltar para mim. Bem ou mal vividos, nesse quarenta anos, muitas vezes tentei, muitas vezes desisti, muitas vezes até tentei desistir, mas não deu. Nem sempre deu. Quase nunca deu.

Mas tudo depende de como e da onde se vê.

Agora, nessa tarde noite cedo, ainda estou de volta ainda no jardim. O jardim da minha vida de 40 anos no jardim.

terça-feira, 27 de março de 2012

Salen ensina a combater os monstros!

Gilson Caroni Filho: Com Chico Anysio o fascismo não sorria

Via Portal Vermelho.

Com o desaparecimento de Chico Anysio, vale lembrar o dito rikiano de que "a fama é a soma de todos os equívocos em torno de alguém"? Ou estamos assistindo a grandes e justificadas homenagens ao mais importante humorista das últimas quatro décadas? Ciente da força corrosiva do humor e da sátira, Chico criava personagens obstinadamente, talvez intuitivamente, sabendo que o jogo da linguagem crítica é, em si, o jogo do espírito em seu aspecto lúdico.

A irreverência no trato com autoridades e seu refinado senso de resistência política o levaram a um intenso processo de criação, como se não quisesse perder um só detalhe do que estivesse à sua volta. Operando com similaridades e antíteses, captou, com sua lente fina, as luzes e o dia-a-dia do povo brasileiro, dos oligarcas aos estratos populares que não se curvam ao desencanto e à decepção.

Do rádio à televisão, Chico Anysio foi um perito em extrair de múltiplos detalhes da nossa formação cultural significados precisos, dissolvendo mitos e máscaras com o ácido sulfúrico da piada certeira e do sarcasmo.

Como ninguém, ele soube fazer isso com ternura, estranha ternura onde o lado amargo da vida é plenamente resgatado pelo humor atordoante. Há quem diga que, como os poetas, os humoristas habitam um mundo em decomposição e decadência, mas o fazem de forma visceral, com arte feita do mais puro aço da reflexão e da lucidez crítica.

Dotado de profunda consciência social, o cearense de Maranguape tem uma face pouco conhecida, que vai bem além do talentoso humorista, autor e compositor: a de um resistente que não se curvou às tentativas de cooptação dos setores golpistas aglutinados, nos anos 1960, na rede de propaganda geral e doutrinação do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES).

Conforme nos revela René Armand Dreifuss* (1981: 248), "a elite orgânica se aproximou de inúmeros produtores, atores e diretores famosos de televisão, tais como Gilson Arruda e Batista do Amaral. Favorecia o uso de programas cômicos, quando possível. Rui Gomes de Almeida observava que uma piada contra um político provocaria um "dano enorme". Negava, ao contrário, o apoio aos atores que não cooperassem ou agissem contra os programas, as linhas de raciocínio e as pessoas que o IPES patrocinava. Tal foi o caso do humorista Chico Anysio, sagaz observador da realidade social".

Na melhor tradição do humor de combate, ainda que sem engajamento explícito, Chico não renegou princípios. Entendeu corretamente e cumpriu com competência a melhor missão do humor: a de fiscal mordaz e crítico visceral das estruturas do poder. Na galeria de mais de duzentos personagens, há lugar de destaque para a velha oligarquia e parlamentares com um profundo sentimento antipopular. Tudo operado com destreza e rara sensibilidade.

Na ausência de herdeiros, o panorama, após sua morte, é desolador. Quadros do Instituto Millennium elegem o ódio de classe, a homofobia e a descriminação de gênero como mote para piadas grosseiras. Programas como Casseta & Planeta e CQC parecem restabelecer uma velha sina: no Brasil, homens que tiveram voos de águia ou condor acabam em incursões galináceas, saltando direto para o poleiro. Enquanto outros, ainda jovens, antecipam a hora do perjuro.

Vai-se a multiplicidade que transforma. Fica a vala comum do transformismo. Não esperem perspicácia, iconoclastia irônica e imaginativa. O que toma a cena como "humor político" nada mais é do que o fascismo que lhe sorri.

*DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. Ação Política, Poder e Golpe de Classe, Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro, 1981

*Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia da Facha (RJ) e colunista do Portal Vermelho e da Carta Maior.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Um belo texto do Luis Fernando Verissimo sobre crenças e liberdade

Território livre

Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário. Ao mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida e dívidas que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos.

Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja.

Se tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida, e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu.

O poder dela está por toda parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros. Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de igreja e estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste País, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado. É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou, mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.

Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita da prepotência religiosa. Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração, no caso, de liberdade.

Publicado na Gazeta do Povo e outros jornais.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Casamento gay diz que Papa Bento XVI ameaça a Humanidade

Em entrevista coletiva, o casamento gay declarou ontem que o Papa Bento XVI é uma ameaça à Humanidade. Citando o comportamento preconceituoso do sumo pontífice, que condena os homossexuais, o casamento gay não tem papas na língua ao criticar o sacerdote. “As pessoas precisam de humanidade e as declarações do papa vão contra o amor ao próximo que Jesus pregou”, diz o casamento gay, que já é legal em vários países da Europa.

Ao saber das declarações do casamento gay contra sua santa pessoa, Bento XVI radicalizou: pediu aos católicos que deixem de ver programas em que haja personagens gays, a começar pelo Crô de Fina Estampa. O papa disse ainda que vai entrar com pedido no Vaticano para mudar seu nome artístico para Bolsonaro XXIV.

Por Desiree Aparecida e Leonardo Lanna
http://www.sensacionalista.com.br

sexta-feira, 16 de março de 2012

Quino avisa: 50 anos de Mafalda só serão comemorados em 2014

Notícias alusivas ao 50º aniversário de Mafalda, sua mais conhecida personagem, levaram o argentino Quino a esclarecer que a data será comemorada apenas daqui a dois anos.

"O dia de sua primeira publicação foi 29 de setembro de 1964, na revista Primera Plana. Para Quino, é o dia de nascimento de Malfada como personagem de histórias em quadrinhos. Qualquer outro cálculo do dia do nascimento é incorreto", afirmou, em seu site oficial.

Segundo o autor, o mal entendido se deve a uma informação em biografia publicada em 1968 na revista Siete Dias na qual ele diz que Mafalda nasceu "na vida real" em março de 1962. Uma tira de 1966 fazia referência ao nascimento da personagem em 1960. "Nem uma nem outra data devem ser levadas em consideração", diz Quino.

"Pensar em uma cronologia para um personagem de histórias em quadrinhos é difícil. Mafalda segue sendo uma menina e sempre será assim. Por isso, Quino considera que o dia de aniversário de Mafalda é o dia de sua primeira publicação em meios impressos, 29 de setembro de 1964. Festejaremos dentro de dois anos."

Mas se a comemoração da contestadora personagem ainda está para acontecer, há outra data a ser lembrada em 2012: Joaquín Salvador Lavado, o Quino, completará 80 anos em 17 de julho.

Fonte: Rede Brasil Atual via Portal Vermelho

quinta-feira, 15 de março de 2012

NOTA: Meu nome não é Rose

Reproduzindo:

Nota

Na segunda-feira à noite recebi aquele que seria o primeiro de vários telefonemas com a seguinte pergunta: “Você é a Rose?” Não, não sou a Rose, não conheço nenhuma Rose, não trabalho com doces ou festas. Ontem, 13/3, às 17 horas compareci espontaneamente à Delegacia de Homicídios para prestar depoimento devido ao fato de o número de meu celular estar num bilhete acompanhado de docinhos envenenados. De fato, o número do celular no bilhete é meu, me pertence há anos, mas não me chamo Rose, não tenho nenhuma relação com o crime, conforme averiguado pela polícia; trata-se de uma coincidência. Não conheço nenhum dos adolescentes vítimas do atentado. Meu número de telefone foi divulgado na Tribuna do Paraná por meio do bilhete anteriormente citado. Por um lado, isso me causou espanto, já que essa seria uma informação sigilosa e, por outro, senti-me desrespeitada. Essa situação está me causando transtornos; não consigo mais usar o celular que é meu desde 2005, pois várias pessoas estão me ligando e perguntando se sou a Rose. Preciso usar meu telefone para fins pessoais e profissionais, mas não posso, porque ele toca a cada dez minutos aproximadamente. Quero deixar claro que também fui uma vítima, já que usaram o número de telefone que coincidentemente é meu para cometer um ato criminoso. O jornal deveria ao menos ter averiguado se o número do telefone existia, se pertencia a algum inocente. Espero que esta situação sirva ao menos para que a imprensa passe a ter mais cuidado com o tipo de informação que divulga. Estou certa que há limites para a chamada liberdade de imprensa.

Assinado: Meu nome não é Rose

A fatídica capa da Tribuna com o bilhete da "Rose"


Eu risquei o número do telefone, a Tribuna que deveria ter feito isso não o fez.