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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Matando um Árabe

Hoje morreu a minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames". As palavras iniciais do livro “O Estrangeiro” (1942) de Albert Camus entraram para a história da literatura como o início mais marcante de um romance.

Retomo essa passagem, e o conteúdo do romance do escritor franco-argelino para colocar os fatos recentes no campo da ficção, mesmo sabendo que muitas vezes há mais realidade nos livros que na vida. No meio do romance, o personagem central encontra árabes na praia e, ante a possibilidade de uma luta, mata um deles com tiro de revolver. Em seu julgamento, o assassinato do árabe perde importância, e o centro passa a ser a apatia em relação à morte da mãe.

Décadas depois a banda de rock inglesa The Cure, transforma a cena do assassinato em cancão. “Killing an Arab” (1978) foi o primeiro compacto lançado pela formação liderada por Robert Smith. A segunda estrofe dessa canção expressa perfeitamente o que quero dizer:

“Eu posso voltar atrás, ou eu posso disparar a arma, Olhando para o céu, Olhando para o sol, Qualquer escolha que eu faça, Tem a mesma importância: Absolutamente nenhuma.”

Tudo isso para mim era o que entendia como o centro do pensamento existencialista do Século XX. A apatia como antídoto. A vida banalizada. A morte como objeto estético (e patético, com o perdão pelo trocadilho).

Osama Bin Laden era um Árabe nascido em Riad. Integrante de uma próspera família que negociava petróleo. Teve negócios com os Estados Unidos, em particular com a família Bush.

Os detalhes sórdidos que transformaram o sócio em inimigo número um estão por aí, numa mistura assombrosa de ficção e realidade que faria os contos de cego da biblioteca parecerem fábulas infantis. Nem o mais talentoso escritor do universo seria capaz de conferir verossimilhança à falcatrua estadunidense.

Osama foi morto na noite de primeiro de maio. Assim como no romance de Camus, ou na canção do Bob Smith, a morte teve mais importância pela estética do que por qualquer outro motivo.

Vale lembrar que Killing an Arab foi proibida nos EUA. Consideraram a canção agressiva ao povo árabe, o que é uma baita ironia. Mas o fato de Osama ser árabe e mulçumano também é uma ironia. Ele esteve à venda e depois se arrependeu. Talvez estivesse expiando seus pecados perante Alá, empreendendo uma tosca guerra “santa”.

Ajudou os EUA a expulsar os Russos do Afeganistão depois percebeu que não passava de um objeto a ser descartado no momento certo. E foi, descartado no momento certo. Sua morte é um breve ato de um espetáculo que deve fazer sentido para o público (pelo menos boa parte dele). A popularidade de Obama disparou. Ele não será julgado. Deve ter chorado no enterro da mãe.

Há quem duvide da morte de Osama. Eu não. Eu duvido da sua vida.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Surpresa matinal: "Damned" tocando "Alone Again Or" do "Love"

Acordei detonado pela gripe (cadê o aquecimento global?) e zapeei um pouco. Caí na MTV, que na madruga e pela manhã tem seus momentos.

Revi o vídeo abaixo. Genial cover da bandinha punk Dammed de um clássico do Love. Essa música abre o "Forever Changes", puta disco fundamental.

Vale a pena conferir a viagem com toques flamencos/mexicamos. A dançarina na areia com uma jamanta passando atrás é quase brega, mas em tempos de Lady Gaga não dá nada. Confiram:

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Uma visão da modernidade nas cidades, por Joel Benin

Amigo e camarada há mais de 20 anos, o Joel está se afirmando como um bom historiador, habilidade acrescentada à excelente liderança e articulação política. Dá-lhe Benin:

MODERNIDADE – MUNDO URBANO


*Joel Benin

Tentando compreender a evolução do mundo urbano, podemos identificar, na leitura de alguns autores, dos séculos XIX e XX, quando estes autores percebem que para alguns o modernismo poder ser algo relacionado a aspectos do espírito e mantém relação direta com o mundo intelectual e artístico ou fala-se em modernização que, para muitos, é a capacidade do homem de desenvolver a sociedade do ponto de vista material, econômico e político. Para Baudelaire, por exemplo, era necessário que o homem tivesse a capacidade de captar a aparência e o sentimento de sua própria era.

A cidade moderna e suas ruas apresentavam novos desafios, misturando novidades, incertezas e um certo movimento caótico mas, ao mesmo tempo, a cidade moderna, como mostra Baudelaire, desencadeia novas formas de liberdade criando oportunidades de novas experiências, possíveis de serem vividas pelas novas massas urbanas.

Para Clóvis Gruner e Luiz Carlos Cereza , no texto “As tramas da ficção”, a experiência da modernidade está diretamente relacionada com a vida urbana. Sobre isso afirmam:

A experiência da modernidade é essencialmente urbana. Razão pela qual a cidade constitui-se, principalmente ao longo do século XIX, paisagem privilegiada da vida moderna. Cenário de experiências, palco de inflexões, a cidade do século XIX seria o espaço por excelência da realização da utopia moderna: ela representa, a um só tempo, a possibilidade de desnaturalização e de fabricação de vida.(GRUNER; CEREZA In GRUNER; DENIPOTI, 2008, p. 149)

Para ler a íntegra do arquivo, clique aqui – Modernidade.